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    TESTEMUNHA SOFRE ATENTADO

    DISTRITO FEDERAL
    Testemunha do caso Nenê Constantino está hopitalizada após sofrer atentado

    Renato Alves, Correio Braziliense

    Está internado em um hospital particular de Brasília, sob proteção policial, uma das principais testemunhas de acusação no processo em que o empresário Constantino de Oliveira, o Nenê Constantino, é acusado de mandar matar dois homens. O pistoleiro João Marques dos Santos, 42 anos, levou três tiros na noite da última sexta-feira (18/2), em Águas Lindas (GO), onde mora. A Polícia Civil e o Ministério Público do Distrito Federal tratam o caso como tentativa de queima de arquivo. Suspeitam da participação do fundador Gol Linhas Aéreas, dono do Grupo Planeta e de uma construtora em mais este crime.

    Réu confesso em três processos por assassinato no Distrito Federal, o baiano João Marques está indiciado como responsável pelo assassinato de dois homens que invadiram uma garagem de Constantino, em Brasília. João, que trabalhou como lanterneiro da Viação Planeta por 20 anos, afirmou, em depoimento à polícia, ter recebido ordem do ex-patrão para executar outras seis pessoas. Junto com provas técnicas, esse depoimento levou ao indiciamento e prisão de Constantino, que reponde ao processo em liberdade graças a um benefício da Justiça.

    Consciente, após passar por cirurgia no Hospital Regional de Ceilândia no sábado (19/2), o pistoleiro disse a investigadores que havia sido procurado por um homem de confiança de Constantino várias vezes pedindo para ele mudar o depoimento marcado para 1° de março próximo, quando o Tribunal do Júri de Taguatinga ouvirá as testemunhas de defesa e os réus no inquérito da morte do líder comunitário Márcio Leonardo Leonardo de Sousa Brito, assassinado em outubro de 2001.

    Investigação demorada
    No entanto, a Polícia Civil indiciou Constantino somente em outubro de 2008. Desde então, ele e outros dois ex-funcionários respondem por homicídio qualificado. Constantino, como é mais conhecido o empresário, planejou a morte de Márcio Leonardo por um ano, segundo a polícia. O homem de 27 anos liderava as mais de 100 pessoas que moravam no terreno onde funcionava a garagem da antiga Viação Pioneira, na QI 25 de Taguatinga.

    O grupo ocupava a área desde 1990. Nenê movia ação de despejo contra eles, mas só conseguiu a terra de volta após a morte de Márcio. Todos haviam comprado os lotes fracionados por outro ex-empregado do grupo Planeta, que Constantino autorizara morar de favor no prédio construído no terreno.

    Márcio morreu com três tiros de revólver calibre .38 — dois no tórax e outro na perna direita — a 0h15 de 12 de outubro de 2001, na porta de casa. Para executá-lo, segundo a investigação, o proprietário da segunda maior empresa de aviação do país e do maior número de ônibus urbanos da capital federal deu ordens para os motoristas aposentados João Alcides Miranda , 61 anos, e Vanderlei Batista Silva, 67. Ambos haviam trabalhado na Planeta e ainda prestavam serviços a Constantino. Miranda se passou por morador da invasão para levantar informações sobre os líderes e Silva contratou o pistoleiro, de acordo com a investigação.

    Empresário preso
    Nenê Constantino foi preso na noite de 15 de dezembro de 2010, acusado de ser o mandante da tentativa de homicídio de um dos seus ex-genros, o empresário Eduardo Alves Queiroz, em 2008. Nenê estava no Tribunal do Júri de Taguatinga, participando de uma audiência do processo que apura o assassinato de Márcio Nonato Sousa Brito, ocorrido em 2001 — do qual o dono da Gol é também apontado como mandante —, quando chegou o mandado de prisão expedido pelo juiz Fábio Martins.

    A Justiça decretou a prisão preventiva do acusado — nesse caso, ele poderia ficar preso durante toda a instrução do processo. Na decisão, o juiz Fábio Martins recomendou que Nenê Constantino não fosse algemado. Ele também ressaltou que a autoridade policial tomasse cuidados com a idade do acusado e “suas fragilidades naturais” — o empresário tem 79 anos.

    A investigação da tentativa de homicídio foi conduzida pela 8ª DP (SIA). Em 5 de junho de 2008, Eduardo Queiroz saía do escritório da empresa de transporte União — pertencente ao grupo comandado por Constantino — quando um homem que estava na garupa de uma moto disparou cinco vezes contra o carro do empresário. Quatro tiros acertaram o veículo do ex-genro do fundador da Gol, mas Queiroz saiu ileso do episódio.

    Dois meses antes de ser alvo do ataque, Queiroz — que na ocasião já não estava mais casado com a filha de Constantino — tinha dito em depoimento à polícia que sabia do planejamento para o assassinato do líder comunitário Márcio Leonardo de Sousa Brito. A audiência realizada em 15 de dezembro de 2010 no Tribunal do Júri tratava justamente desse homicídio, do qual Nenê Cons-tantino é acusado de ser o mandante.

    Além de Constantino, outras quatro pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público por suposto envolvimento na morte de Márcio: o genro de Nênê Constantino, Victor Bethórico Forest, que teria corrompido testemunhas; o ex-funcionário do empresário, Vanderlei Batista Silva, que seria o encarregado pelo assassinato; João Alcides Miranda, apontado como um espião de Nênê no assentamento; e João Marques dos Santos, que seria o responsável por contratar o executor o crime.

    Confissão em vídeo
    Pai de três filhos, João Marques dos Santos desapareceu após dar um depoimento bombástico à Polícia Civil de São Paulo. No interrogatório, em Araçatuba, há quase quatro anos, o pistoleiro confessa ter executado oito homens a mando de Nenê Constantino. Na passagem mais desconcertante, o matador revela que na lista de pessoas marcadas para morrer estariam dois genros do empresário. “Eu matei umas oito pessoas pra ele (Nenê Constantino)”, contou João Marques. O depoimento foi enviado à polícia de Brasília, que investiga os crimes atribuídos ao empresário.

    No vídeo, de quatro horas de gravação, João Marques conta como executava suas vítimas, de forma fria, comum aos pistoleiros profissionais. Ele fala de suas relações com o empresário e dá detalhes sobre os homens que “fez” (matou) por dinheiro. Marques descreve o ex-patrão como uma pessoa extremamente vingativa, desconfiada e violenta, que não aceita ser contrariada e está acostumada a resolver suas pendências negociais a bala.

    O vídeo foi gravado após o pistoleiro desistir de um “trabalho” que lhe teria sido encomendado por Constantino. A vítima seria o empresário Basílio Torres Neto, genro do fundador da Gol. Conta ele no vídeo: “O velho me chamou e falou: ‘Tenho um negócio pra você fazer lá em São Paulo…’. Aí ele mandou e eu vim”.

    Para confessar seus crimes de forma tão simples, os policiais brasilienses trabalham com a versão de que o pistoleiro vacilou ao chegar a Araçatuba. Em vez de fuzilar Basílio conforme a encomenda, ele decidiu procurar a vítima, contar tudo e pedir dinheiro em troca de poupar-lhe a vida. Basílio aceitou o pacto e acionou a polícia paulista. Nesse processo, ganhou a confiança do pistoleiro, que destravou a língua e contou as coisas assombrosas registradas no vídeo.

    Além dos assassinatos, ele confessa a autoria de assaltos e fraudes contra companhias de seguro cometidos a pedido do patrão. João Marques não teria sido preso em São Paulo por não haver ainda queixa formal contra ele e pelo fato de suas confissões terem soado críveis aos policiais de São Paulo. Eles usaram as informações para proteger o genro de Constantino.

    Em julho de 2005, dois anos antes de o depoimento ser gravado, a polícia de Araçatuba prendeu dois detetives particulares que confessaram estar levantando detalhes da rotina de vida do genro de Constantino. A dupla portava armas, fotografias antigas da vítima e um relatório detalhado sobre os hábitos de Basílio. O trecho final do documento registra que, “apesar de todas as dificuldades que aparentam, foi detectado (sic) vários locais que possibilitam a operação e tornam viável o desfecho final”.

    Os detetives contaram à polícia que foram contratados por familiares de Constantino, desconfiados de que uma das filhas do empresário estava sendo vítima de um golpe. Disseram que não sabiam ao certo o nome dos contratantes e não esclareceram o que seria o tal “desfecho final”. Uma foto antiga de Basílio em poder dos detetives trazia anotados no verso o nome e o número do telefone celular de Constantino.

    Policiais suspeitos
    Em outubro de 2007, sete meses depois da revelação do pistoleiro, a polícia abortou uma nova investida contra a vida do genro de Constantino. Dois policiais de Brasília foram presos enquanto rondavam a casa de Basílio em Araçatuba. Em poder deles a polícia encontrou um pequeno arsenal composto de revólveres, pistolas, espingardas, além de equipamentos de vigilância como binóculos e uma filmadora.

    Um dos policiais afirmou que ia a uma pescaria e o outro disse que viajou a Araçatuba para encontrar um amigo. Nenhum explicou o fato de terem viajado na companhia de João Alcides Miranda, ex-funcionário de Nenê Constantino, também acusado de assassinato. Alcides apressou-se em dizer que fora ao interior paulista em busca de uma vacina contra o alcoolismo. A polícia achou a história de Alcides inconsistente. E não tem dúvida de que o grupo estava na cidade para executar o genro de Constantino.

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    Deve ler

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